Instinto Assassino


O que se passa nos dias de hoje nas nossas estradas....É por vezes assustador.
Com a vinda do verão, este vosso ferrenho e orgulhosamente Algarvio, sente na pele a presença de automobilistas vindos do além.
Com isto digo, ou quero dizer, além-fronteiras (as fronteiras do Algarve com o resto do pais já viram dias mais claros, pelo menos em termos geográficos, já que politicamente deixaram de existir...).
Alguém disse que a população do Algarve quintuplica cada vez que o Verão nos visita. Creio que sim, é verdade. Creio não, tenho a certeza.
Avalio este crescendo de anormalidades malabarísticas efectuadas por condutores "de férias" (são piores que os vulgares condutores de domingo, pois esses, como o nome indica, conduzem só ao domingo) como uma prova clara da nossa imaturidade enquanto país onde existem estradas - estradas essas pagas por nós, e onde até nos deixam circular.
São como crianças (e muito mal educadas) atrás de um volante de um jogo da PS2, ou de um carrinho de choque da feira popular...sem respeito, sem regras, num jogo agressivo onde o que interessa é chegar primeiro. Só nunca percebi onde é que o dito instinto animal quer chegar primeiro. Ao hospital!? Às vezes, parece-me claro que sim.
Há que encher bem o peito de ar, e esperar que 5 vezes mais automóveis não indiquem préviamente mudança de direcção, 5 vezes mais condutores andem lentamente a passear pelas vias rápidas (de braço fora do vidro e pés no tablier) aproveitando a paisagem, o ar fresco e fazendo simultaneamente com que 25 outros condutores, atrás deste, lhe chamem nomes que não ouso reproduzir aqui e que o mandem vltar para a terrinha da senhora mãe deles... Que 5 vezes mais animais passem por nós sem nos tocar, que 5 vezes mais viaturas façam 5 vezes mais ultrapassagens estúpidas e suicidas, e que 5 vezes mais semáforos sejam desrespeitados.
Cinco vezes boa sorte, amigos!

Nota: Não escrevia aqui uma linha desde Novembro passado. Da terra do Tio Sam passo agora para a "nossa terra"... e deixo no ar a questão: será que este Tio Sam não é já tio de meio-mundo?!

Reino sem princesa


As ruas continuam grandes, as estradas continuam longas e intermináveis, e as casas continuam grandes e diferentes, espaçadas com o à vontade de uma vaca num vasto pasto, no grande território californiano. De madeira e gesso, com cores ténues que podem ter grandes variações de tom, janelas generosas, quintais gigantes, jardins arranjados e garagens enoooormes (quase como labaredas). O tempo continua bom (isto segundo os locals, que dizem que está a ser um outono bem quente), embora o sol só mostre a sua amizade calorosa nas horas em que está mais vertical, e as manhãs e fins de tarde tragam temperaturas geladas, humidade e até nevoeiro.

Os dias correm. Acelerados e sem pausas. Passam depressa e são extremamente agitados. Todos os dias se fazem muitas coisas novas, e se aprendem outras tantas. Todos os dias se conhecem pessoas novas, que fazem coisas diferentes, em sítios diferentes, de forma diferente. Todos os dias conheço mais e melhor a empresa e as mentes que levam continua e incessantemente para a frente ideias inovadoras... e de sucesso. São mentes muito mais modestas do que o que seria de esperar, e incansáveis no capítulo do imaginário. Existe no ar deste grande edifício um cheiro a ideias frescas saltedas com um pouco de loucura e um cheirinho de inconsequência gerado em torno de um desporto que adoro - gosto disto!

Mas é no final destes longos dias de horários californianos adubados com temperaturas instáveis e recheados com molhos multi sabores, que reconheço sentir falta dos ares portucalenses, do meu mar, dos mais próximos amigos. A solidão sentida nas longas noites passadas atrás do monitor começam a tornar-se bastante incómodas, repetitivas e cansativas. As imagens de casa cheiram bem, as vozes de quem está mais próximo sabem a pouco.

Creio que nas palavras dos antigos o termo se chamava: Saudade.

Frase do Dia

" Acredita que o mundo não acaba se nós pararmos,
mas nós podemos acabar, e não vai ser isso que vai parar o mundo! "

by Hugo Mckoy

Ou então não.

"Throughout The Centuries There Were Men
Who Took First Steps Down New Roads
Armed With Nothing But Their Own Vision"
by Ayn Rand

"Desde os exórdios da humanidade, individuos munidos
com nada mais que a sua estupidez natural
enveredaram por caminhos nunca antes trilhados,
e acabaram por se desnortear e levar a cabo
infindas expedições que os levaram a
lugares que não interessavam a mais ninguém"
por Hugo Mckoy

...ou então não.

Land of oportunities


Existem coisas curiosas em todas culturas. Existem coisas interessantes em todos os sítios. Existem coisas únicas em cada país. E eu descobri mais uma.

Por cá existem muitas diferenças, umas assustadoras, outras assustadoramente dissimuladas. No fundo, falamos de um país com um crescimento acelerado que sobreviveu vivo e a alta velocidade durante décadas, e isso tem o seu preço. O crescimento da economia tem sempre repercurssões na sociedade. Infelizmente nem sempre positivas.

No estômago de um gigante que não pára de crescer, o trabalho cresce exponencialmente. Criam-se muitos postos de trabalho, e como tal muitas casas, e como tal muitas famílias, e como tal muitas escolas, igrejas, restaurantes, lojas, clubes de bowling, e ruas, estradas, auto estradas, avenidas, parques de estacionamento... e placas de sinalização.

Isso, placas de sinalização. Quando me apercebi do fenómeno, lembrei-me imediatamente da velha "classificação" do novo continente - Land of oportunities". Isto porque imaginei que alguém que se dedique pura e simplesmente a fazer placas, desenhar, recortar, pintar, inventar... tem futuro nesta terra.

Para todo o lado, por todo o lado, em todas as direcções, lá estão elas - placas e mais placas e mais placas de sinalização. Umas avisam, outras explicam, outras indicam e outras são hilariantes. São de plástico, de metal, são grandes, médias, assim-assim e pequenas. São coloridas, muito coloridas, ou então nem por isso. Mas são muitas, imensas, por todo o lado e em todo o sítio. Porque tudo e todos têm de ser avisados, existem placas para nos dizer que as rochas são escorregadias, que não podemos levar o cão para a praia, para nos indicar a direcção da cidade mais próxima e para avisar que, naquele sítio, existem cabos debaixo do solo, e por isso devemos avisar os senhores da placa do lado antes de começarmos as escavações. Existem placas que afixam horários de funcionamento, placas que nos dizem o que é proibido e outra, mesmo ao lado, que no diz quanto vamos pagar se não cumprirmos a lei. Existe até uma placa que nos diz que temos de atravessar na passadeira, e outra logo abaixo que indica por onde devemos seguir. Existem até placas que nos avisam que à noite a visibilidade é menor... não vamos nós cair ao mar.

Uma coisa é certa, nesta terra quem não lê não sobrevive.

Riscas e Estrelas


Passados dezasseis dias da minha chegada à terra do meu tio Sam (que segundo uma pesquisa que fiz na net é um parente afastado da prima em terceiro grau da cunhada do vizinho do primeiro andar de um amigo de um primo de uma das tias do meu pai que mora lá para os lados de Carrazeda de Ansiães), continuo a ser mais um extraterrestre em Marte. A distância cultural é grande, mas é no sentido práctico das coisas e da vida quotidiana que encontro a maior discrepância.

À medida que o tempo passa conheço mais e melhor esta cultura sintética e aprisionada na sua própria teia de pseudo-segurança, e dou mais valor aquelas pequenas coisas a que nos habituámos, lá na terrinha. A minha presença não passa despercebida, mas a proximidade plástica e simpatia obrigatória dos "locals" não me comove. Os serviços funcionam, mas as motivações gerais da classe operária/comercial são apenas características técnicamente básicas de uma formação profissional massiva e totalmente desprovida de características pessoais.

Sinto saudades. Coisas simples e outrora pouco significantes ganham agora um valor maior - beber um café passou a ser uma tarefa impossível, e passear na praia passou a ser demasiado complicado. Jantar fora passou a ser disgestivamente perigoso, e pedir uma cerveja passou a ser um acto de bravura... As ruas estão limpas, e existe vegetação por todo o lado, mas ninguém anda a pé e ninguém lê um livro à sombra de uma árvore.. Sinto que não há vida real nas redondezas, e que todos funcionam como uma comunidade de personagens automatizadas que se limitam a cumprir os procedimentos do software com o qual foram programadas na sua criação. Estão todos nos mesmos lugares, às mesmas horas a comer as mesmas coisas. Uma rotina aborrecida que é levada em mãos pelos sorrisos impostos pelos empórios comerciais, e que conduzem milhares de famílias ao tédio culturalmente aceite por estas gentes admiradoras do poder da sua nação. "God Bless America" é o grito de guerra que une estes milhares de seres.
E é chegada a hora de jantar, numa visita curta compro uma sandes na Subway, arriscando só o essêncial, sem molhos nem outras substâncias duvidosas. Uma bebida que tem de ser obrigatoriamente grande, e é sempre necessário pedir para não acrescentar batatas fritas - e o mais importante, nunca esquecer aquela parcela de cerca de 10% do valor da conta, que em palavras lusas seria chamada de "gorjeta", sendo que por estes lados, é socialmente obrigatória.
Sim, OBRIGATÓRIA.

The Big Easy



Em todos os continentes existem lendas, em todas as terras existem sítios lendários, e em todos os negócios existem pessoas lendárias. São histórias que se repetem de boca em boca durante anos, algo que alguém ouviu e contou a alguém que por acaso estava próximo... Histórias verídicas, histórias fantásticas, às vezes histórias com muita imaginação à mistura, outras que podemos apenas considerar mitos urbanos. Histórias em que realmente acreditamos, outras em que queremos acreditar. Umas fazem-nos sonhar, outras apenas nos fazem rir bem alto e fazer troça.

No sítio para onde vim existe um senhor simpático, alto e sorridente, magro e descontraído, jovial para os seus 55 anos de idade, que adora andar de bicicleta. Mike foi o fundador de uma grande empresa do ramo das bicicletas e acessórios, e ainda hoje assume a função de presidente. "Conta a lenda" que existe um percurso bastante habitual para Mike, e que se resume em partir da sua casa bem cedo, e atravessar as montanhas que separam Silicone Valley do Oceano Pacífico, através de estradas secundárias, labirínticas e serpentantes, chegar perto do mar, e voltar por estradas de categoria semelhante, e fazer este exercício físico e mental durante horas, atingindo distâncias respeitáveis e assustadoras para muitos, e regressar finalmente a sua casa, onde normalmente a sua esposa serve um refeição rica em hidratos de carbono.

The Big Easy, é a "voltinha habitual" que Mike adora fazer, e é talvez, na minha opinião, lendária. Não foi a primeira vez que ouvi referências de várias pessoas, até mesmo de gente sem qualquer ligação à empresa de Mike, e que a mensagem remetia para a dificuldade e a resistência necessária. Sentia-se sempre no ar um respeito e um sentimento de admiração geral cada vez que ouvi falar da "lendária Big Easy".

E eis que o inesperado (e temido), me acontece. Esta semana, no pequeno almoço de grupo que é servido na empresa todas as sextas feiras, Mike veio falar comigo, cumprimentou-me e perguntou se eu estava a gostar de cá estar... e se queria ir andar com ele no dia seguinte. Se existem alturas em que nos sentimos pequeninos, congelados, perplexos, encurralados ou amedrontados, este foi um desses momentos. Sorri em tons de amarelo canário. Hesitei... e disse que sim. Nestes momentos, até os mais bravos se calam, até os mais destemidos pensam duas vezes. Mike Sinyard convidou-me para a Big Easy - estou tramado, pensei. Mas nestas coisas dos desafios, há que arriscar. Eu não podia dizer que não, e mesmo o facto de estar ainda na fase de rescaldo de uma constipação, ou mesmo as noites mal dormidas iriam soar a desculpas falsas, e eu não me iria perdoar.

Sábado, oito da manhã, um frio de rachar e lá estamos nós, à porta da casa de Mike, nos arredores de Morgan Hill. Carregados de barras energéticas, água e quadradinhos de marmelada, como qualquer Indiana Jones antes da sua incurssão pelo desconhecido. Esta ia doer, era sabido. Saímos num grupo de cinco, e o ar gelado da manhã já fazia prever o desconforto que nos esperava. O número de colinas que ultrapassámos ficou gravado nos músculos das minhas pernas, as paisagens fantásticas destas florestas ficaram na minha mente, e as descidas rápidas e perigosas deixaram marcas nos meus travões.
Subidas íngremes, subidas lentas, subidas curtas e subidas longas, alcatrão velho, alcatrão novo, troços em terra batida (sim, em terra batida!), curvas longas em descidas velozes, curvas impossíveis em descidas suicidas, e longas rectas intermináveis em estradas ladeadas pelas famosas quintas californianas, onde se anda a cavalo, se faz bom vinho, e se constroem casas gigantes em madeira e gesso. Paragens curtas mas abençoadas, e cidades com ruas limpas e simpáticas, que apenas nos viam passar por breves segundos.

Chegámos a casa de Syniard por volta das três da tarde, com dores em pontos nos quais eu desconhecia que era possível ter dores, almocei um spaguetti de trigo e uma salada verde e soculenta. Um sorriso na cara de todos dizia bem alto: This was a hell of a ride, wasn't it?!

Pessoalmente sei que esta foi uma experiência que não vou esquecer. As 83 milhas (para os distraídos são mais coisa menos coisa cerca de 133.57kms de alcatrão português), pesam-me nas pernas, mas o sentimento de realização pessoal ultrapassa as dores que sinto.

Hoje foi um dia memorável, pois vivi a lendária "Big Easy".